terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Merry Christmas!

O Máquina Política deseja a todos os seus leitores um Feliz Natal!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Por dentro da campanha de Romney

Foi recentemente divulgado o trailer de apresentação do documentário da Netflix sobre a (inglória) campanha de Mitt Romney à Casa Branca, em 2012. Apesar de apenas ir para o ar a 24 de Janeiro do próximo ano, este sneak peak deixa água na boca para o que aí vem. Provalvemente, e como o documentário obteve beneplácito do candidato republicano à presidência, não serão revelados novos dados sobre a campanha do ano passado, mas, a julgar pelo trailer, é bem possível que o este documentário traga uma nova luz sobre Romney, mostrando o seu lado mais humano e pessoal, uma faceta que não conseguiu partilhar na sua corrida à Casa Branca. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

A economia recupera, mas os americanos andam zangados

A popularidade do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anda pelas ruas da amargura. Segundo a última sondagem da Gallup, 49% dos norte-americanos não estão contentes com o trabalho do seu Chefe de Estado, ao invés dos apenas 42% que aprovam a prestação de Obama na Casa Branca. 
A insatisfação com o trabalho do Presidente é ainda acompanhada de uma percepção generalizada por parte do público de que a situação do país está a piorar e não a melhorar. De facto, de acordo com os dados fornecidos pela Rasmussen, 65% dos norte-americanos considera que a direcção seguida pelos Estados Unidos é errada, com apenas 28% a achar o contrário.
Curiosamente, o agravamento da percepção negativa por parte do público norte-americano em relação ao trabalho de Obama e ao rumo do seu país, surge numa altura em que a economia dos Estados Unidos dá sinais de uma franca recuperação, em claro contra-ciclo com outras regiões do mundo, sendo a Europa o exemplo mais flagrante. Em Novembro, o desemprego atingiu o valor mais baixo dos últimos cinco anos, estando agora nos 7% e os níveis de emprego nos EUA aproximam-se dos valores "normais" do período anterior à grande crise de 2008.
A confirmar-se esta tendência até ao final de 2016, então Barack Obama poderá até ter um grande argumento para utilizar como ponto-chave do seu mandato: a recuperação económica. Na verdade, o 44º Presidente dos Estados Unidos chegou à Casa Branca no olho do furacão que representou a crise económica e financeira de 2008. Contudo, e apesar do aumento do desemprego na primeira metade do seu primeiro mandato, a Administração Obama foi capaz de evitar uma recessão como a que se verificou na Europa, salvou a indústria automóvel (um dos pilares da economia norte-americana), reformou (ainda que timidamente) a regulação financeira de Wall Street e lançou um programa de estímulos federais que, além de impedir níveis de desemprego ainda mais elevados, serviu de âncora para uma lenta mas notória recuperação económica. 
Contudo, e apesar de ter realizado todos estes feitos, Barack Obama não recebeu por eles todo o mérito que lhe era devido e, pior ainda, merece, actualmente, índices de popularidade francamente negativos. É difícil explicar as razões que levam os norte-americanos a entender que a situação do país está a piorar, quando todos os indicadores apontam o contrário. Talvez a polémica em torno da implementação da impopular reforma do sistema de saúde dos Estados Unidos explique parte da insatisfação do público, mas certamente não o explica na sua totalidade. Assim, estou mais inclinado a considerar que é o actual clima de polarização política em Washington a estar na base do negativismo do público. 
Actualmente, democratas e republicanos mostram-se incapazes de se entenderem no que quer que seja e o país parece ingovernável. Como se vê pelos números das sondagens (Obama tem valores negativos e o índice de aprovação do Congresso ronda os 12%!), os norte-americanos não estão contentes com os políticos e não vêem uma luz ao fundo do túnel para a resolução do impasse na capital federal. Por isso, aos olhos do público, a recuperação económica acontece apesar dos políticos e não por causa dos políticos. E, assim sendo, Obama (que também tem a sua quota-parte de responsabilidades na polarização política actual) "leva por tabela" e vê a sua popularidade prejudicada.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Obama homenageia Mandela e cumprimenta Castro

Como grande parte dos líderes mundiais, Barack Obama esteve presente na sentida homenagem a Nelson Mandela. Sendo o primeiro presidente dos Estados Unidos descendente de africanos, Obama é muito querido nesse continente e o seu discurso em Pretoria foi calorosamente recebido pelos milhares de sul-africanos presentes no estádio Soccer City. O discurso de Obama foi emotivo e, como não podia deixar de ser, muito elogioso para Madiba, a quem comparou a outras grandes figuras como Ghandi, Martin Luther King e Abraham Lincoln. Aliás, o Presidente norte-americano classificou mesmo o antigo Presidente sul-africano como o último grande libertador do século XX. 
A presença de Barack Obama na homenagem ao lendário Nelson Mandela ficou também marcada pelo seu cumprimento ao líder cubano, Raul Castro, um momento especialmente importante ou não estivessem as nações cubana e norte-americana desavindas há mais de 50 anos. É difícil perceber se o gesto teve algum significado especial ou se o líder norte-americano apenas evitou um incidente protocolar, mas é certo que os assistentes de Obama saberiam de antemão quem estaria no caminho do Presidente entre o seu lugar e o pódio e teriam, por isso, formas de evitar tal encontro se o desejassem. É, por isso, possível especular que Obama tenha cumprimentado o irmão de Fidel por livre e espontânea vontade, um gesto que, convenhamos, encaixa que nem uma luva no espírito de conciliação advogado por Mandela (e que foi também seguido pelas suas duas mulheres, que, também na cerimónia, deixaram para trás guerras antigas, e se cumprimentaram carinhosamente).
Contudo, o aperto de mãos entre Obama e Castro pode trazer consequências políticas para o Presidente dos Estados Unidos no seu próprio país. Parte dos norte-americanos vêem com maus olhos a deferência dos seus Presidentes perante líderes estrangeiros (por exemplo, Obama foi muito criticado por alguns republicanos por ter cumprimentado Hugo Chavez e por ter feito uma vénia ao Rei Abdullah da Arábia Saudita). Ainda durante o dia de ontem, o senador republicano John McCain comparou mesmo o aperto de mãos de Obama e Castro ao cumprimento entre Neville Chamberlain e Adolf Hilter, em 1938. 
Seja como for, o cumprimento entre Obama e Castro no homenagem a Mandela só terá um verdadeiro significado se for acompanhado de uma mudança na política dos Estados Unidos em relação a Cuba. Apesar de, no seu discurso de ontem, Obama ter lançado algumas farpas aos líderes mundiais que homenageavam o libertador Nelson Mandela ao mesmo tempo que reprimiam o seu povo, também falou na necessidade de confiança, perdão e reconciliação na relação entre os povos. Recentemente, Obama alcançou um acordo com o Irão, um histórico inimigo dos Estados Unidos, em relação ao programa nuclear deste país do Médio Oriente. Por isso, é possível que Obama se esteja a preparar para, na parte final do seu mandato, se concentrar no plano externo, procurando alcançar acordos com tradicionais adversários norte-americanos, como Cuba. Esse modus operandi, utilizado, no passado, por outros presidentes norte-americanos (veja-se Clinton e o acordo israelo-palestiniano), teria o condão de garantir um legado importante e duradouro. 
Se a apaziguação entre os Estados Unidos e Cuba for mesmo um objectivo de Obama e se um acordo entre os dois países for mesmo possível, então de certeza que Nelson Madela gostaria de saber que, até na sua morte, conseguiu promover a reconciliação entre os povos.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ObamaCare, conquista e falhanço

A convite do Germano Almeida, comentei a situação actual da reforma do sistema de saúde norte-americano, mundialmente conhecido como Obamacare. A peça está disponível aqui.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Thanksgiving Day

Comemora-se hoje aquele que é, porventura, o mais tradicional dos feriados norte-americanos, o Thanksgiving Day. Um pouco por todos os Estados Unidos, as famílias reunem-se à mesa para comer o tão característico perú. Em Portugal, o Dia de Acção de Graças tem ainda pouca expressão, mas, com massificação da cultura norte-americana que nos chega através de filmes, séries televisivas e livros, o dia já não passa despercebido. Por isso, Happy Thanksgiving Day!

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

50 anos da morte de Kennedy

Assinala-se hoje o 50º aniversário do assassinato do 35º Presidente dos Estados Unidos. A 22 de Novembro de 1963, John Fitzgerald Kennedy foi morto a tiro em plena luz do dia, na cidade de Dallas, no Texas. Esse dia ficou marcado no imaginário de todo o mundo e terá tido o impacto que o 11 de Setembro teria muitos anos depois.
Após a sua morte, o mais novo Presidente norte-americano de sempre tornou-se um ícone mundial e, apesar de não ter estado sequer três anos na Casa Branca, é um dos líderes dos Estados Unidos mais admirados de todos os tempos, tanto interna como externamente. De grande promessa política, JFK tornou-se numa verdadeira lenda. O facto de, 50 anos depois, ainda se discutir o seu assassinato e existirem diversas teorias de conspiração, é prova disso mesmo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O ano horribilis de Obama

Há pouco mais de um ano, quando Barack Obama foi reeleito para a Casa Branca com um resultado relativamente folgado e de uma forma bem mais fácil do que se julgava antes da noite eleitoral, o Presidente dos Estados Unidos parecia estar em velocidade de cruzeiro rumo a um mandato tranquilo e rico em vitórias legislativas.
Contudo, hoje, tudo é diferente e Obama vive um dos seus piores momentos desde que, em 20 de Janeiro de 2009, chegou à Sala Oval. Curiosamente, esse mau momento tem origem naquela que foi, até à data, a sua maior conquista enquanto Presidente. A polémica reforma da saúde norte-americana, que marcou o primeiro mandato de Obama, começa agora a ser implementada, mas com notórios e importantes sobressaltos que minam a imagem do Presidente e da Administração que fizeram da reforma mais conhecida como Obamacare a sua grande bandeira política.
Em primeiro lugar, foram os problemas com o site onde os cidadãos se deveriam inscrever para conseguir os novos seguros de saúde ao abrigo do Obamacare. Informação errónea e contraditória, incapacidade para responder à elevada procura e candidaturas realizadas de forma indevida foram algumas das acusações que foram feitas ao healthcare.gov. A onda de protestos foi de tal ordem que chegou a estar em causa o cargo de Katheleen Sebelius, a Secretária da Saúde e dos Serviços Humanos da Administração Obama. 
Depois, as críticas subiram de tom com a revelação de que alguns norte-americanos não estavam a conseguir manter o seu seguro de saúde, ao contrário da anterior promessa de Obama que havia garantido que qualquer cidadão que gostasse do seu seguro o poderia manter quando aderisse ao Obamacare. Com o momentum negativo a avolumar-se, o Presidente foi obrigado a vir a público para pedir desculpa aos norte-americanos pela verdadeira trapalhada que representou o início da implementação da reforma e prometeu empenhar-se ao máximo para resolver os problemas detectados.
Todavia, o mal estava feito e a reforma da saúde, já polémica e polarizadora, viu a sua imagem ficar ainda mais denegrida aos olhos da opinião pública. Consequentemente, também Obama sentiu na pele os efeitos desta crise e os seus números desceram a pique nas sondagens. Segundo a Gallup, 53% dos norte-americanos desaprovam o trabalho do Presidente, contra os apenas 41% que têm uma opinião favorável. Ora, estes números são, imagine-se, semlhantes aos de George W. Bush na mesma altura do seu mandato.
Obama está, portanto, em muitos maus lençóis e esta crise ameaça paralizar seriamente a Casa Branca e compromete a capacidade política do Presidente. Obviamente, é ainda muito cedo para afirmarmos que o segundo mandato de Barack Obama está comprometido e é ainda mais prematuro caracterizarmos a sua presidência como falhada. Contudo, o 44º Presidente norte-americano precisa urgentemente de reagir e inverter a situação, porque, com os ciclos políticos e eleitorais a serem cada vez mais curtos, o rótulo de lame duck ameaça colar-se a Obama de forma irreversível.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A mini noite eleitoral de 2013

A primeira Terça-feira de Novembro é, nos Estados Unidos, o dia tradicional para a realização de eleições. Apesar de estarmos num ano ímpar, não havendo, por isso, eleições presidenciais e/ou legislativas, decorreram, ontem, três actos eleitorais relevantes para a realidade política nacional norte-americana com os eleitores da Virginia e de New Jersey a escolherem os governos estaduais e os da cidade de New York a deslocarem-se às urnas para indicarem um novo Mayor.
A eleição no Estado da Virginia era, porventura, a corrida mais importante, por ser, à partida, a mais equilibrada e onde os dois partidos iriam apostar forte. Contudo, nas últimas semanas, o candidato democrata, Terry McAuliffe, descolou nas sondagens para uma vantagem confortável sobre o seu adversário, o republicano Ken Cuccinelli. Assim, esperava-se que, na noite eleitoral, McAuliffe alcancasse uma vitória tranquila, com uma margem de vitória na ordem dos dois dígitos. Conhecidos os resultados, verificou-se, porém, uma curtíssima margem de vitória para o candidato democrata, que derrotou Cuccinelli por menos de três pontos percentuais.
Trata-se de um resultado normal para a Vírgina, um Estado muito equilibrado politicamente nos dias de hoje, mas que surpreendeu por ir contra o momentum democrata que as sondagens vinham mostrando. Terry McAuliffe cedo ganhou vantagem devido à grande superioridade financeira com que contava (e que se acentuou pela posterior desistência do GOP nacional face aos maus resultados de Cuccinelli nas sondagens) e pelos danos que o shutdown casou à candidatura republicana. Mas, nos últimos dias, Ken Cuccinelli conseguiu recuperar algum terreno perdido, recorrendo ao ataque sistemático à reforma do sistema de saúde conhecido como Obamacare. Num Estado onde a maioria da população se opõe à reforma, o seu discurso colheu frutos e terá impedido McAuliffe de vencer por um landslide. Não obstante a curta margem de vitória, o triunfo democrata neste Estado mostra, uma vez mais, que a Virginia está, cada vez mais, a fugir do controlo republicano.
Em New Jersey não houve surpresas e o Governador Chris Christie venceu folgadamente com 60% dos votos. O resultado desta corrida era previsível e a candidata democrata, a senadora estadual Barbara Buono, nunca teve reais hipóteses de vitória, já que o Partido Democrata nunca mostrou ter intenção de disputar a eleição no Garden State. Com este triunfo, Christie passa a ser um dos principais (se não o principal) favoritos à nomeação presidencial republicana em 2016. A confirmar-se esse cenário, Chris Christie nem deverá cumprir na totalidade o mandato para o qual foi eleito na noite de ontem pela maioria dos seus constituintes.
Do outro lado do rio Hudson, em New York City, o candidato democrata, Bill de Blasio, derrotou o republicano Joe Lhota por números esclarecedores: 73,3% contra 24,,3% dos votos. Com este resultado, os democratas voltam a controlar a City Hall de New York, algo que não acontecia há 20 anos. Depois do republicano Rudy Giuliani e do independente Michael Bloomberg, ambos com uma estreita ligação ao mundo dos negócios, os cidadãos da Big Apple decidiram mudar de rumo e escolheram o perfeito desconhecido de Blasio para comandar os destinos da cidade. Com uma agenda muito liberal e progressista, o democrata terá uma árdua tarefa pela frente, já que terá de continuar o bom trabalho dos seus antecessores, no que diz respeito ao combate ao crime e à melhoria das condições de vida, ao mesmo tempo que baixa o custo de vida na cidade, tema que marcou a campanha eleitoral.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A inevitabilidade de Hillary Clinton

Estamos ainda a três anos das próximas eleições presidenciais norte-americanas, que terão lugar no dia 8 de Novembro de 2016. Contudo, parece que os ciclos eleitorais começam cada vez mais cedo e a sucessão de Barack Obama já dá que falar, independentemente da grande distância a que nos encontramos da eleição que se adivinha muito interessante.
Inevitavelmente, o primeiro nome que vem à baila quando se discutem as eleições de 2016 é o de Hillary Clinton. Hoje, a antiga Primeira-Dama, Senadora e Secretária de Estado é, sem margem para dúvidas, a preferida entre os democratas para concorrer à Casa Branca. E é fácil de perceber porquê: com uma capacidade financeira invejável, Hillary tem um currículo que fala por si e não há ninguém, em qualquer dos lados (nem Joe Biden), com tão vasta experiência política. Com um reconhecimento nacional praticamente nos 100% e com a sua popularidade em máximos de sempre, a esposa de Bill Clinton é a clara favorita para conseguir a nomeação democrata.
Cientes de que Hillary é a sua melhor candidata para manterem a Casa Branca, os democratas têm feito um forte lobby para assegurar que a antiga Senadora de Nova Iorque entra mesmo na corrida. Senão vejamos: muitas figuras de peso do partido têm clamado por Hillary Clinton (Charles Schumer foi a última voz a levantar-se a seu favor); existe até uma petição a pedir a sua candidatura presidencial e, na semana passada, soube-se de uma carta secreta em que as senadoras democratas terão alegadamente encorajado Hillary a concorrer.
Apesar do actual tom consensual à volta de Hillary Clinton, é preciso não esquecer que, num passado não muito distante, a ex-Primeira-Dama era uma das figuras mais polarizantes da política norte-americana. Mesmo durante as primárias de 2008, Hillary, apesar de favorita, tinha um elevado índice de opiniões negativas sobre si. Só mais tarde, com a sua actuação na liderança da diplomacia dos Estados Unidos, é que a sua imagem se suavizou e alcançou números bem mais positivos. Ainda assim, é previsível que, quando (e se) entrar na corrida, o regresso à política partidária e os ataques da campanha terão efeitos negativos na sua imagem. Além disso, o estado de saúde da antiga Secretária de Estado levanta algumas preocupações, o que, aliado à sua idade (terá 69 anos em 2016), pode prejudicar as suas hipóteses numa longa e desgastante campanha. Finalmente, pode ainda sofrer o problema de carregar o nome Clinton, o que, não obstante a popularidade do seu marido, pode levar os eleitores norte-americanos a temerem uma nova dinastia política, depois das poucas saudades que deixaram os dois presidentes da família Bush.
Mas, pesados os prós e os contras, Hillary Clinton tem nas próximas eleições uma excelente oportunidade para se tornar a primeira Presidente dos Estados Unidos. E, ao que tudo indica, irá mesmo tentar chegar à Casa Branca, a julgar pela sua marcada presença no circuito de palestras norte-americano, onde vai ensaiando a mensagem a utilizar numa eventual campanha. A confirmar-se a sua candidatura, a vitória de Hillary é possível e até provável. Todavia, é melhor não afirmarmos que é inevitável, porque já se sabe como isso resultou em 2008.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A divisão republicana ilustrada

Com a divisão que reina actualmente no seio do Partido Republicano em destaque após o acordo para o fim do shutdown, o New York Times criou um gráfico/mapa interactivo que ilustra as diferentes facções do GOP, de acordo com o sentido de voto dos congressistas republicanos no que diz respeito à proposta que resolveu, por enquanto, o impasse em Washington. A consulta deste gráfico, ajuda, e muito, a tomarmos consciência da realidade actual dos dois partidos norte-americanos: de um lado, os democratas, unidos e a votar como um bloco praticamente inexpugnável, e, do outro, os republicanos, divididos pela discórdia das suas várias facções.

sábado, 19 de outubro de 2013

Que futuro para o GOP depois do shutdown?

Na passada Quarta-feira, democratas e republicanos chegaram finalmente a um entendimento que levou ao fim do shutdown e trouxe a normalidade de volta a Washington e aos Estados Unidos. O acordo foi originalmente anunciado pelos líderes do Senado, o democrata Harry Reid e o republicano Mitch McConnell e, mais tarde, o Senado votava esmagadoramente a favor do acordo para retomar o financiamento do governo federal, com apenas 18 senadores (todos republicanos) a votarem contra o fim do shutdown. De seguida, também a Câmara dos Representantes aprovou o acordo, com os votos favoráveis de todos os democratas e 87 republicanos (144 congressistas do GOP votaram contra).
16 dias depois, chegou ao fim, pelo menos por agora, um longo e desgastante impasse que provocou grandes tumultos políticos e económicos na nação norte-americana. Contudo, o acordo agora alcançado não resolve o problema do orçamento federal, limitando-se a adiar o debate para daqui a cerca de três meses. Nessa altura, democratas e republicanos terão de chegar a um novo entendimento para que o o governo continue a funcionar.
Ainda assim, um novo shutdown deverá estar fora da mesa, já que os republicanos não quererão repetir a receita que, desta vez, lhes trouxe tantos dissabores. De facto, este frente-a-frente foi altamente prejudicial para o Partido Republicano, que saiu da crise como o grande derrotado. Considerados pela opinião pública como os principais responsáveis pelo shutdown e sem terem conseguido ganhar nada com a sua tomada de posição, os republicanos estão agora numa posição muito fragilizada e terão de correr atrás do prejuízo causado pela sua actuação ao longo da crise que agora termina.
Em sentido inverso, os democratas e Barack Obama em particular estão a ser caracterizados como os vencedores do despique. É um facto que conseguiram obrigar os republicanos a ceder sem "entregar" nada ao outro lado. Todavia, não é totalmente claro que o Presidente dos Estados Unidos tenha ganho alguma coisa com esta sua vitória. Isto porque é bem possível que, após esta derrota, os republicanos se tornem ainda mais intransigentes e ainda menos dispostos a negociar com Obama e com os democratas. E isso pode inviabilizar quaisquer novas conquistas legislativas da Casa Branca durante este segundo e último mandato de Barack Obama. A reforma da imigração, cuja aprovação no Congresso parecia, há uns meses atrás, parecia praticamente inevitável, pode ser a grande prejudicada e arrisca-se a ficar na "gaveta".
Contudo, a estratégia a seguir pelos republicanos é ainda um pouco dúbia e deverá depender do resultado da batalha interna pelo controlo do partido que se trava actualmente no seio do GOP. De um lado, os republicanos mais radicais, liderados pelos políticos mais próximos do Tea Party e, do outro, os membros do GOP mais moderados. No Congresso, essa disputa tem sido vencida pelos mais radicais e a liderança republicana, constituída principalmente por políticos mais próximos do centro, tem tido enorme dificuldade em controlar as suas bancadas, hoje em dia sob grande influência dos Tea Party. 
Ora, a posição demasiado intransigente dos republicanos do Congresso tem levado à contínua degradação da imagem do partido a nível nacional. As últimas sondagens colocam os a aprovação do trabalho dos congressistas republicanos por parte dos eleitores nos níveis mais baixo de sempre e mostram os democratas a fugir nas intenções de voto para as eleições intercalares de 2014. Assim sendo, e apesar de faltar ainda mais de um ano para este momento eleitoral, tudo aponta para que os republicanos não tenham um 2014 tão positivo como esperariam.
Em suma, o GOP atravessa, hoje, um mau momento, com o extremismo da ala mais conservadora e a impopularidade dos seus membros do Congresso a arrastarem o partido para o fundo. Assim, e com as presidenciais de 2016 cada vez mais perto, aquilo que os republicanos precisam desesperadamente a precisar é de encontrar um líder moderado, que não tenha sido "tocado" pelos vícios de Washington e que tenha experiência de governação. Neste momento, quem encaixa que nem uma luva nesta descrição é, claro está, Chris Christie.

domingo, 13 de outubro de 2013

Os republicanos em maus lençóis

Como se esperava, as consequências políticas do shutdown estão a ser muito negativas para o Partido Republicano e as sondagens mostram que a maioria dos americanos culpa principalmente os republicanos pelo impasse em Washington que levou ao encerramento parcial do governo federal norte-americano. Esta semana, uma sondagem para o Wall Street Journal e para a NBC News revelou que 53% dos norte-americanos atribuiem as culpas do shutdown ao GOP, enquanto que apenas 31% assacam as principais responsabilidades desta crise política ao Presidente Barack Obama.
Ora, a um ano das eleições intercalares, este percepção pública sobre a responsabilidade pelo shutdown poderá ter importantes consequências eleitorais para o Partido Republicano. Tradicionalmente, o GOP é mais forte em eleições intercalares do que em anos de eleições presidenciais, beneficiando da maior abstenção entre grupos eleitorais tendencialmente democratas, como os jovens ou as minorias, em eleições que não contam com o mediatismo das eleições em que se escolhe o ocupante da Casa Branca.
Contudo, os estudos de opinião mostram agora um rápido crescimento das intenções de voto para os democratas nas eleições para o Congresso. Uma sondagem da Greenberg Quinlan Rosner Research (com ligações aos democratas) indicou uma vantagem democrata que já atingiu os dois dígitos. De acordo com esta sondagem, 46% dos eleitores tencionam votar num candidato democrata e 36% preparam-se para votar num republicano para o Congresso.
É certo que falta ainda muito tempo para as eleições intercalares (terão lugar em Novembro de 2014), mas estas são péssimas notícias para os republicanos que tinham como principal objectivo político a breve prazo recuperar a maioria no Senado. Todavia, a manter-se este cenário, não só não conseguirão alcançar esse objectivo, como se arriscam a perder o controlo da Câmara dos Representantes para os democratas, algo que, há poucas semanas, parecia praticamente impossível. 
Os alarmes deverão estar a soar entre a liderança do GOP e os republicanos mais moderados. Porém, estes terão uma árdua tarefa pela frente para resgatar o partido, que se encontra actualmente refém dos sectores mais radicais e que, apesar de serem uma minoria, têm um grande poder político. Contudo, para controlar os danos, é obrigatório que o partido se desvie da retórica mais extremista e belicosa e regresse à sua mensagem tradicional que tão bons resultados lhe costuma trazer em eleições intercalares. Caso contrário, o GOP arrisca-se a sofrer uma derrota estrondosa no próximo ano.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Shutdown ficcional vs shutdown real

A série televisiva The West Wing (em Portugal conhecida como Os Homens do Presidente), além de ter ficado para a história como um dos melhores e mais premiados produtos televisivos de todos os tempos, é também conhecida por prever alguns acontecimentos futuros com uma curiosa precisão. Agora, sete anos depois de a sua última temporada ter ido para o ar, volta a demonstrar ser visionária, já que um episódio da quinta temporada retrata de forma muito semelhante a crise política que os Estados Unidos ultrapassam. Como não podia deixar de ser, esse episódio, de elevada qualidade, mesmo numa altura em que Aaron Sorkin já havia deixado a sériae, tem como título Shutdown.
Num excelente e pertinente artigo da Wired, Graeme McMillan recorda esse episódio e compara o shutdown do universo ficcional da série que retratava o quotidiano da Casa Branca de Jed Bartlet (magnificamente  interpretado por Martin Sheen) com o shutdown que, no presente, domina as atenções nos Estados Unidos e afecta pessoas de carne e osso. Vale a pena ler.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A posição republicana

Dois dias depois do Shutdown, continua a não haver acordo em Washington e os serviços não essenciais do governo federal continuam encerrados. Ontem, na Casa Branca, Barack Obama reuniu-se com os líderes democratas e republicanos do Congresso, mas nenhum entendimento foi alcançado. Os republicanos continuam a insistir no seu ataque ao Obamacare e Obama é intransigente na defesa da maior vitória legislativa da sua presidência.
Para muitos, pode parecer estranha a posição republicana. É verdade que a reforma do sistema de saúde norte-americano continua a dividir opiniões nos Estados Unidos. Contudo, essa reforma foi aprovada pelo Congresso, confirmada pelo Supremo Tribunal e passou o teste das urnas no ano passado. Assim sendo, porque razão continuam os congressistas republicanos tão empenhados na sua luta para derrubar o Obamacare?
Para perceber a resposta a esta questão é preciso recuarmos às eleições intercalares de 2010. Nesse ano, o Partido Republicano alcançou uma grande vitória e, além de roubar a maioria na Câmara dos Representantes aos democratas, conseguiu o controlo da maioria dos órgãos legislativos estaduais. Ora, são exatamente as legislaturas estaduais que determinam, a cada dez anos, o desenho e a distribuição dos círculos eleitorais que determinam a eleição dos congressistas para a Câmara dos Representantes. Em 2011, com as câmaras legislativas da maior parte dos Estados no seu poder, os republicanos redesenharam os círculos eleitorais de forma a que as suas hipóteses nas eleições para a House saíssem muito favorecidas. Neste momento, a distribuição dos círculos eleitorais é-lhes tão favorável que os democratas, para conseguirem uma maioria na Câmara dos Representantes, teriam de vencer o GOP por 4% ou 5% dos votos a nível nacional.
Além de garantir que a maioria dos congressistas republicanos estão seguros da sua posição eleitoral, tendo, por isso, maior margem de manobra para tomar posições impopulares, a redistribuição dos distritos congressionais também resultou numa maior polarização dos círculos eleitorais. Por norma, os distritos controlados por um congressista democrata são constítuidos por uma maioria de liberais, enquanto que os distritos nas mãos de um republicano são tendencialmente muito conservadores. Assim, os congressistas do GOP têm, grosso modo, um eleitorado significativamente mais conservador do que o eleitor médio norte-americano. E, como é óbvio, esse eleitorado opõe-se ao Obamacare, provavelmente o programa federal mais odiado de sempre pelo movimento conservador dos Estados Unidos.
Podemos, então, concluir que os congressistas republicanos, ao combaterem a implementação do novo sistema de saúde, estão apenas a cumprir a vontade dos eleitores que representam. É preciso ainda recordar que os congressistas têm, com honrosas excepções, pouca notoriedade e influência a nível nacional. Apenas um pequeno número terá a ambição de alcançar cargos estaduais ou nacionais, pelo que lhes interessa, sobretudo, manter satisfeitos os seus constituintes. 
Com esta explicação, torna-se mais compreensível a tomada de posição dos republicanos na Câmara dos Representantes. Todavia, nem o facto de a postura do GOP ser menos irracional do que à primeira vista se poderia pensar reveste de objectividade a sua posição. Isto porque, mais tarde ou mais cedo, terão de ceder de forma a permitir que o governo volte a funcionar normalmente. E, no final, o Obamacare continuará a ser the law of the land, mas o shutdown terá, ao que tudo indica, fortes consequências políticas e eleitorais para o Partido Republicano

terça-feira, 1 de outubro de 2013

SHUTDOWN!

E o impensável aconteceu: à meia-noite de hoje, em Washington D.C., o governo federal norte-americano foi encerrado depois de o Congresso não ter chegado a um acordo para a aprovação de um orçamento temporário que permitiria manter os serviços geridos pelo governo dos Estados Unidos a funcionar até ao final do ano.
As negociações entre democratas e republicanos não chegaram a bom porto devido à posição inflexível dos republicanos da Câmara dos Representantes, que exigiam a eliminação ou o corte de fundos para o sistema de saúde conhecido como Obamacare, ideia totalmente rejeitada pelos democratas.
Esta é uma postura muito dura por parte dos republicanos mais radicais e que pode ter graves consequências políticas e eleitorais para o GOP. Todas as sondagens têm indicado que a grande maioria dos norte-americanos não concorda com a estratégia utilizada pelos republicanos da House e, agora, quando os efeitos do shutdown começarem a ser sentidos na pele pelos milhares de funcionários públicos que estão a ser enviados para casa sem ordenado e quando os meios de comunicação social derem um enorme destaque ao que se está a passar, é muito provável que a imagem do Partido Republicano saia muito beliscada desta crise.
No seio do GOP, há, contudo, quem esteja preocupado com a posição assumida pelo caucus republicano da Câmara dos Representantes. Chegou a falar-se mesmo de uma rebelião dos republicanos moderados face à ala mais extremista. Todavia, quando uma proposta que visava ultrapassar o bloqueio ao orçamento foi votada, apenas seis congressistas republicanos votaram ao lados dos democratas, um número insuficiente para ultrapassar a maioria do GOP. Os democratas é que não perderam tempo e encetaram de imediato uma barragem de publicidade nos distritos dos congressistas republicanos mais vulneráveis culpando-os pela crise governamental.
Agora, resta esperar que uma das partes ceda, sendo que é mais provável que sejam os republicanos a fazê-lo, dado que se espera que sejam eles os principais responsabilizados por esta crise. Aliás, tudo indica que as consequências para o Partido Republicano serão ainda mais nefastas do que aquelas que sofreram Newt Gingrich e os republicanos, em 1996, quando se deu o último shutdown em Washington, durante a Presidência de Bill Clinton. Se assim for, a vida não ficará nada fácil para o GOP e mesmo as eleições intercalares de 2014 podem vir a ser muito influenciadas pelo modo como esta crise se desenrolar.
Será também interessante perceber como reage Barack Obama a esta situação, numa altura em que os seus números de aprovação têm vindo a cair significativamente. Se conseguir parecer "presidencial" e assumir a gestão e resolução da crise, então poderá conseguir um novo balão de oxigénio para este seu segundo mandato; se, por outro lado, a sua reacção for inócua e não mostrar capacidade de liderança, então o rótulo de lame duck pode chegar mais cedo do que nunca.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Obamacare: a luta continua

A passagem de uma história lei que reformou o sistema de saúde norte-americano foi a maior vitória do primeiro mandato de Barack Obama na Casa Branca e constituirá, muito provavelmente, o principal marco da presidência do antigo Senador pelo Illinois. A aprovação do Affordable Care Act, nome oficial da legislação que ficou mais conhecida como Obamacare, foi em Março de 2010, mas hoje, três anos e meio depois, continua ainda no centro da discussão política dos Estados Unidos.
Esta semana, esteve em destaque o Senador republicano Ted Cruz, que discursou, de forma ininterrupta, durante mais de 21 horas, no Senado, utilizando uma espécie de filibuster para evitar que a câmara alta do Congresso, dominada pelos democratas, votasse para derrubar uma proposta aprovada pela Câmara dos Representantes, sob controlo republicano, que retiraria os fundos governamentais necessários para a manutenção do Obamacare.
Ted Cruz, eleito em 2012 pelo Estado do Texas, é uma figura em ascenção no GOP e um potencial candidato presidencial em 2016. Com esta acção, o jovem senador ganhou reconhecimento nacional, mas, por outro lado, tornou-se uma figura controversa. Para os seus apoiantes, como os libertários e o Tea Party, o épico discurso de Ted Cruz foi um acto heróico e uma firme demonstração de defesa das suas convicções. Já para os seus detractores, foi apenas uma manobra publicitária desprovida de qualquer objectivo prático, visto que, mais tarde ou mais cedo, a votação seria realizada.
As reacções aos discurso de Cruz demonstram bem a enorme polaridade causada pela reforma da saúde. Três anos volvidos, a histórica peça legislativa continua a dividir opiniões. Obama e os democratas achavam que a reforma iria ganhar apoiantes à medida que as pessoas iam assimilando as vantagens do novo sistema. Contudo, as sondagens indicam que o aumento de popularidade do Obamacare é, no máximo, muito tímido. Não obstante, não deixa de ser verdade que uma curta maioria dos norte-americanos não vê com bons olhos as repetidas tentativas republicanas de reverter a lei que criou a reforma do sistema de saúde. Além disso (ou por causa disso), mesmo no seio do GOP se começam a levantar vozes contra a insistência do partido em combater o Obamacare, com alguns republicanos a temerem que a perservança seja entendida pelos eleitores como  radicalismo, o que, numa altura em que o GOP é cada vez mais criticado por estar sob "sequestro" da sua ala mais radical, não é algo que interesse ao partido de Lincoln.
No fim de contas, não será muito legítima esta batalha contínua em torno de uma legislação já em vigor há algum tempo e que já foi (indirectamente) sufragada nas urnas. Como recordou esta semana o senador republicano John McCain, a reforma da saúde foi um dos temas centrais da campanha presidencial do ano passado que, como se sabe, resultou na vitória de Barack Obama. Assim sendo, e devendo respeitar-se a vontade popular, que preferiu o candidato que originou e defendeu com unhas e dentes (e até deu nome) a reforma, o Obamacare é a law of the land e deverá ser respeitada, mesmo não se concordando com ela.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A Síria e o mundo nas mãos do Congresso

No início da sua carreira política, Barack Obama começou a ganhar notoriedade quando, em 2002, e contra a opinião generalizada na época, se opôs publicamente à intervenção norte-americana no Iraque. Mais tarde, por ocasião da sua candidatura à Casa Branca, em 2008, essa posição foi-lhe muito útil para estabelecer uma verdadeira diferença face a Hillary Clinton, que havia votado a favor da guerra no Senado.
Agora, onze anos e um Prémio Nobel da Paz depois, o Presidente dos Estados Unidos está do lado contrário e defende a intervenção do país num conflito armado, mais precisamente na Síria. Há umas semanas atrás, Obama havia limitado a sua acção ao afirmar que a utilização de armas químicas por parte do regime de Bashar al-Assad era o limite que, se fosse ultrapassado, obrigaria os Estados Unidos a intervir militarmente no conflito.
Com o uso de gás Sarin por parte das forças leais ao regime sírio, que os norte-americanos alegam estar comprovado inequivocamente, Obama foi forçado a agir. Numa primeira instância, os Estados Unidos procuraram o tradicional apoio britânico, que lhes foi negado após a rejeição da intervenção britânica por parte da Câmara dos Comuns. Ainda assim, outros aliados, como a França de François Hollane, parecem dispostos a colocar-se do lado dos norte-americanos.
Contudo, quando tudo parecia encaminhar-se rapidamente para a intervenção dos Estados Unidos e dos seus aliados, Obama decidiu, de forma algo surpreendente, solicitar a autorização do Congresso para a utilização das forças armadas norte-americanas na Síria. Esta é uma prática prevista na Constituição, mas que caiu em desuso desde que Harry Truman entrou na Guerra da Coreia sem autorização do Congresso. Esta decisão de Obama terá sido, provavelmente, inflenciada pela opinião pública norte-americana (a esmagadora maioria defendia a consulta do Congresso) e também pelo que sucedeu no Reino Unido. 
É agora incerta a decisão do Congresso dos Estados Unidos. Há dúvidas e resistências à intervenção norte-americana em ambos os partidos, mas a maior dor de cabeça para a Casa Branca são os repblicanos da Câmara dos Representantes. John Kerry e Chuck Hagel, respectivamente Secretários de Estado e da Defesa dos Estados Unidos, estão a utilizar toda a sua influência para garantir o maior número de votos e contam ainda com o apoio de republicanos proeminentes como John McCain, que já referiu que uma recusa por parte do órgão legislativo seria "catastrófico". Todavia, a ala libertária do GOP, liderada pelo Senador Rand Paul, parece decidida a colocar muitas dificuldades à autorização do uso da força pelo Presidente.
Sendo incerta a resposta do Capitólio a este pedido presidencial, vislumbram-se já algumas consequências importantes resultantes da decisão de Barack Obama em solicitar a autorização do Congresso para a intervenção militar na Síria. Em primeiro lugar, reverte-se a tendência que parecia imparável desde a II Guerra Mundial de reforço do poder presidencial. Com o precedente aberto por Obama, é provável que, no futuro, seja mais díficil para um Presidente norte-americano intervir num conflito externo sem consultar previamente o órgão legislativo. 
Em segundo lugar, o debate no Congresso deixa a nú a divisão que reina actualmente no seio do Partido Republicano. Outrora o partido tough on foreign relations por excelência, com uma maior tendência para o uso do hard power, o GOP está agora a braços com um facção libertária que acredita no isolacionismo cada vez mais influente e que afasta o partido do rumo seguido nos últimos anos. 
Assim sendo, se o voto da Congresso for no sentido de negar ao Presidente o uso da força, então Rand Paul e os seus correligionários libertários darão uma extraordinária demonstração de força. Contudo, colocarão em causa o poder e a influência dos Estados Unidos no mundo e, com a China e a Rússia à espreita para se assumirem como líderes planetários, isso não pode ser positivo para o mundo ocidental.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O sonho de Martin Luther King


Martin Luther King ficou para sempre como o rosto mais visível do movimento pelos direitos civis dos afro-americanos. Contudo, a primeira acção simbólica com verdadeiro impacto foi praticada por Rosa Parks, em 1955. Nesse ano, a 1 de Dezembro, na cidade de Montgomery, no Alabama, Rosa Parks, uma mulher afro-americana, recusou ceder o seu lugar no autocarro a um passageiro branco, sendo detida, julgada e condenada por desobediência e conduta desordeira. O seu gesto chamou a atenção de vários líderes da comunidade negra que fundaram o movimento Montgomery Bus Boycott, apelando a uma reforma que acabasse com a segregação nos transportes públicos. Falhado este objectivo, partiram para um boicote aos autocarros públicos de Montgomery, protesto que durou quase um ano e reduziu em 80% a utilização dos transportes da cidade e que só terminou quando um tribunal federal ordenou o fim da segregação nos autocarros. Com a sua atitude, Rosa Parks ficou conhecida como a mãe do Movimento dos Direitos Civis.
Um dos líderes do boicote de Montgomery transformou-se no rosto mais visível e mais iconográfico do Movimento dos Direitos Civis: Martin Luther King, um doutorado em Teologia e pastor protestante que, inspirado no activismo pacífico de desobediência civil de Ghandi, se tornou um dos mais proeminentes líderes da comunidade afro-americana, vencendo, em 1964, o Prémio Nobel da Paz.
O Movimento dos Direitos Civis ganhou dimensão nacional e, sempre baseado no método de desobediência civil, realizou diversos protestos e manifestações para chamar a atenção para a grave descriminação de que as minorias étnicas eram alvo na América – não só negros, mas também latinos, nativos, asiáticos, etc. – e para pressionar o governo federal a agir para acabar com esta situação.
Importa referir alguns deles, pela sua dimensão e importância. Em 1962, um jovem estudante negro, James Meredith, viu os tribunais federais darem-lhe razão e deliberaram o seu livre acesso à Universidade do Mississipi. Porém, o Governador do Estado, um fervoroso segregacionista impediu a entrada de Meredith no campus universitário. Só após novo recurso de Meredith para os tribunais federais e com uma escolta de US Marshalls é que o estudante conseguiu ter acesso à universidade. Isto despoletou uma furiosa reacção de estudantes e civis brancos que se envolveram em graves confrontos com os agentes federais, de que resultaram dois mortos e cerca de 188 feridos, 28 dos quais polícias. No dia seguinte, o Presidente Kennedy foi obrigado a enviar forças do exército para permitir a permanência de Meredith na universidade e manter a calma na cidade.
Há precisamente 50 anos,  a 28 de Agosto 1963, cerca de 250 mil pessoas, brancos e negros, reuniram-se na capital, Washington, para se manifestarem a favor dos Direitos Civis para todos os cidadãos americanos. Foi nessa ocasião que Martin Luther King proferiu o seu célebre discurso “I Have a Dream”, que entraria na história como um dos mais importantes e brilhantes discursos de todos os tempos. Apelando a uma sociedade mais igualitária e justa, Dr. King lançou as raízes para a viragem da opinião pública em relação à luta pelos direitos civis da comunidade afro-americana. E fê-lo em frente ao Memorial Lincoln, precisamente o presidente que libertou os escravos.
E foi outro presidente, cem anos depois do tempo de Abraham Lincoln, que colocaria, finalmente, em marcha uma legislação que garantiria, definitivamente o fim da segregação e da discriminação racial, pelo menos ao nível de organismos e agentes públicos. No ano seguinte, o Presidente Lyndon Johnson assinaria a Civil Rights Act colocando um ponto final na discriminação e segregação racial até aí ainda praticada por alguns Estados norte-americanos. Estava alcançada a grande vitória da vida de Dr. King. Vida essa que seria interrompida bruscamente quatro anos depois, em Memphis, por uma bala assassina. Contudo, Martin Luther King já havia garantido o seu lugar na história. Por isso, hoje, nesta data simbólica, o mundo volta a recordar o seu nome e, acima de tudo, a sua obra.

terça-feira, 30 de julho de 2013

LBJ vs JFK vs Nixon

Terminei ontem a leitura de mais um belo livro sobre política norte-americana. Da autoria de David, Pietrusza, a obra 1960 - LBJ vs JFK vs Nixon - The Epic Campaign That Forged Three Presidencies debruça-se sobre a histórica eleição de 1960, que colocou frente a frente verdadeiros vultos da história política dos Estados Unidos. Entre eles, destacam-se John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon que seriam os três seguintes ocupantes da Casa Branca, ainda que apenas um deles, Kennedy, fosse o vencedor da eleição desse ano.
Com uma escrita que prende o leitor e contando com algumas histórias verdadeiramente deliciosas sobre os bastidores da campanha (os capítulos dedicados ao histórico primeiro debate entre Kennedy e Nixon são de leitura obrigatória), o final do livro é atingdo com uma velocidade vertiginosa.
David Pietrusza, apesar de conservador, esforça-se por se manter imparcial, ainda que me tenha parecido que John Kennedy teve direito a um tratamento especialmente negativo (também é possível que isso se deva ao facto de, nesta obra, JFK não ser retratado como fazendo parte de um conto de fadas, algo recorrente na misitificação criada à volta do 35º Presidente americano após a sua morte).
Dito isto, resta-me aconselhar a leitura desta obra, não muito extensa (417 páginas), ainda que não exista versão portuguesa. Afinal, apesar de existirem diversos livros sobre a épica eleição de 1960, poucos têm a qualidade desta obra de Pietrusza.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Bush pai solidário

O 41º Presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush, rapou o cabelo em jeito de solidariedade para com o filho de um dos agentes do Secret Service responsáveis pela sua segurança que sobre de leucemia. Esta doença tem um particular significado para a família Bush, pois o segundo filho do casal George e Barbara faleceu, com quatro anos de idade, vítima de leucemia. Com este gesto, o patriarca da família Bush, com 89 anos, demonstrou que não existe idade limite para a prática de actos generosos e solidários.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Obama tenta reavivar o seu mandato


A primeira metade do segundo mandato de um presidente norte-americano é, tradicionalmente, um período bastante produtivo para o líder do executivo dos Estados Unidos. Com o ímpeto fornecido pela vitória eleitoral, o Presidente costuma ter todas as condições para, nesta fase, levar a sua agenda legislativa a bom porto. Contudo, com o actual ocupante da Sala Oval isso não está a acontecer e, desde que foi reeleito, Obama não conseguiu nenhuma vitória legislativa de relevo.
Consciente da estaganação da Casa Branca, o Presidente norte-americano realizou ontem, na Knox College, no Illinois, um discurso de fundo sobre a situação da economia do país. Com esta iniciativa, Obama tentou dar um novo impulso à sua Presidência, motivando as hostes democratas e colocando a economia, de novo, no topo das prioridades da sua administração e no epicentro da discussão política. Todavia, o seu discurso foi algo ambíguo. Recordou a melhoria da situação económica e sublinhou a necessidade da aposta na continuação da recuperação norte-americana, mas não apresentou ideias concretas para o conseguir. Além disso, destacou a importância da implementação reforma do sistema de saúde e destacou a urgência na aprovação da reforma da imigração pelo Congresso, fugindo, ainda que brevemente, ao tema principal do seu discurso.
Ao fazê-lo, Obama como que confirmou as previsões da maioria dos analistas em relação ao seu legado. Ao que tudo indica, o 44º Presidente norte-americano será recordado mais pelas suas vitórias em questões sociais (a reforma da saúde, a reforma da imigração [caso seja aprovada], os direitos dos homossexuais, etc.) do que pelo sua dedicação à recuperação económica do país. Pode ser algo injusto, especialmente se analisarmos o caminho percorrido pela economia dos Estados Unidos desde o início de 2009, quando Obama tomou posse. Porém, o legado de um Presidente é constituído, acima de tudo, em percepções e, neste caso, a perceção que chega ao público é a de um Presidente que não se empenha a 100% no que diz respeito às questões económicas.
Verdade seja dita, muita da responsabilidade da inoperância de Barack Obama neste seu segundo mandato tem de ser apontada aos republicanos do Congreso. Ontem, no seu discurso, Obama salientou isso mesmo, ainda que tenha elogiado a vontade de alguns republicanos em chegar a entendimentos com os democratas (a reforma da imigração é o caso de maior destaque). Com este discurso, de cariz relativamente partidário, Obama não terá ganho novos aliados no Congresso, mas pode ter conquistado pontos na opinião públicando, colocando pressão sobre a Câmara dos Representantes controlada pelos conservadores. Assim sendo, teremos de aguardar os próximos desenvolvimentos para perceber se, com o discurso de ontem, Obama conseguiu ou não dar um novo ímpeto ao seu mandato.

domingo, 21 de julho de 2013

Reforma da imigração nas mãos da Câmara dos Representantes

Continua a batalha legislativa pela passagem de uma histórica e ampla reforma das regras da imigração para os Estados Unidos da América. Com o apoio da Casa Branca, dos democratas e de uma parte minoritária mas influente do Partido Republicano, falta apenas a passagem da proposta de lei pela câmara baixa do Congresso norte-americano. Contudo, o último passo pode muito bem não chegar a ser dado e é possível que a reforma da imigração venha mesmo a morrer na praia.
No final do mês passado, as conversações do famoso Gang of Eight (um grupo bipartidário responsável por negociar e acordar o formato final da lei) foram bem sucedidas e, após algumas alterações realizadas para agradar aos republicanos (nomeadamente o fortalecimento da segurança das fronteiras), a proposta de lei foi finalmente apresentada no Senado que a aprovou com um resultado de 68 votos favoráveis contra 32 votos contra. Ao lado dos democratas e dos independentes, votaram 14 senadores do GOP. Apesar de os proponentes da proposta não terem atingido os 70 votos pretendidos, o resultado não deixa de ser positivo e encorajador para os defensores da reforma da imigração. 
Com a aprovação no Senado, ficava a faltar apenas o "sim" da Câmara dos Representantes - a promulgação da lei por parte de Barack Obama é um dado adquirido. Todavia, e ao contrário do que acontece na câmara alta, são os republicanos (na sua maioria, marcadamente conservadores) que estão na maioria e, aparentemente, pouco dispostos a votar favoravelmente a Border Security, Economic Opportunity and Immigration Modernization Act, o pomposo nome oficial da proposta de lei. 
Mesmo assim, ainda há esperança para a reforma da imigração e figuras proeminentes dos dois partidos estão a trabalhar no sentido de a verem passar na Câmara dos Representantes. No seio do Partido Republicano, cujos representantes decidirão o desfecho final, Marco Rubio, John McCain e até mesmo George W. Bush têm desdobrado esforços com o objectivo de conseguirem os votos suficientes para a passagem da proposta. Entre estes, Rubio é aquele que tem mais a perder, já que apostou muito do seu capital e futuro político na aprovação desta reforma. Se falhar, as suas ambições (inclusive presidenciais) ficarão seriamente comprometidas.
Mas também o Partido Republicano joga muito do seu futuro nesta questão. Como se viu nas últimas eleições presidenciais, o voto hispânico continua a fugir para o lado democrata a um ritmo assustador para os líderes do GOP. Se esta reforma da imigração for rejeitada pelos republicanos, então o bloco eleitoral com maior crescimento demográfico nos Estados Unidos poderá ficar definitivamente nas mãos do Partido Democrata. 
São, por isso, consideráveis e importantes as razões políticas que justificam a aprovação da reforma da imigração. Contudo, as razões morais são ainda mais poderosas, especialmente se tivermos em conta os ideais fundadores da nação norte-americana. Afinal, a Terra das Oportunidades e o Sonho Americano têm de estar acessíveis e a todos e a qualquer um.

terça-feira, 16 de julho de 2013

O racismo nos Estados Unidos volta à ordem do dia

Após a eleição do primeiro presidente afro-americano da história dos Estados Unidos, poderia pensar-se que a questão da divisão racial nos Estados Unidos estaria finalmente a ser ultrapassada. Contudo, nos últimos dias, a absolvição de George Zimmerman, um branco (ou hispânico) acusado de assinassinar o negro Travyon Martin despoletou uma onda de protestos motivados pela questão da raça e trouxe de novo este velho e polémico tema para a actualidade norte-americana.
Tudo começou na noite de 26 de Fevereiro do ano passado, em Sanford, na Florida, quando o jovem de Travyon, de 17 anos, regressava a casa. Ao passar junto a um condomínio privado, cruzou-se com Zimmerman, vigilante voluntário na zona. George Zimmerman, de 28 anos, branco, mas com mãe cubana, considerou o comportamento de Martin suspeito e telefonou à policia a comunicar isso mesmo. Depois de desligar o telefone, ter-se-á envolvido fisicamente com Travyon, acabando por balear e matar o jovem afro-americano.
Depois do incidente, a polícia não contrariou a alegação de auto-defesa de Zimmerman e deixou-o sair em liberdade, o que provocou uma série de críticas e de protestos, pelo meio de acusações de racismo a Zimmerman e mesmo à polícia da Florida. Na altura, o próprio Presidente dos Estados Unidos adensou a polémica, ao afirmar que, caso tivesse um filho (Obama tem duas filhas), ele seria como Travyon. No seguimento da controvérsia, o Ministério Público desencadeou uma investigação que culminou, em Abril de 2012, com a acusação de homício de segundo grau a George Zimmerman.
Mais de um ano depois, terminou o julgamento do alegado homicida, que acabou por ser ilibado de todos os crimes por um júri composto por seis mulheres brancas.  Este resultado teve como consequência uma série de manifestações um pouco por todo o país, com milhares de afro-americanos a insugirem-se contra aquilo que entendiam ser o raciscmo do sistema judicial norte-americano e exeigindo justiça para a morte de Martin.
Apesar de as manifestações serem, na sua maioria, totalmente pacíficas, a verdade é que elas fizam recordar os tempos mais conturbados do movimento dos direitos civis, nos anos 60 do século passado. Agora, como há 60 anos atrás, a comunidade afro-americana volta a sair às ruas para chamar a atenção para o racismo da sociedade em que vivem. Sem líderes como Martin Luther King, Malcom X ou Jesse Jackson, mas com um poderoso símbolo na morte de Travyon, os negros dos Estados Unidos estão novamente a agitar de forma estrondosa a questão da raça na maior potência mundial.
Fica assim claro que a eleição de Barack Obama, apesar de toda a sua importância e simbolismo para os afro-americanos, não colocou um ponto final nesta matéria. Afinal, ainda existe racismo nos Estados Unidos.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Paragem para férias


















Após um longo extenuante ano, o Máquina Política entra de férias durante um par de semanas. Infelizmente, não tenho escrito tanto como gostaria e como habituei os leitores deste blogue. Contudo, espero que este período de descanso sirva para recuperar energias que permitam um regresso em força. Até breve!

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A doutrina Bush/Obama

Quando Barack Obama foi eleito pela primeira vez, em 2008, conseguiu-o depois de uma campanha eleitoral em que o seu principal talking point foi a crítica à Administração de George W. Bush. Na altura (e actualmente, ainda que de forma menos pronunciada), o 43º Presidente dos Estados Unidos era altamente impopular e a estratégia democrata resultou na perfeição - quatro anos mais tarde voltaria a funcionar. 
Assim, após a eleição do antigo Senador do Illinois, esperava-se que Obama, ao cumprir a sua promessa de romper com as políticas de Bush, mudasse radicalmente o rumo da Casa Branca. Contudo, isso foi apenas parcialmente verdade, já que, no domínio da política externa e da segurança nacional, Obama optou por seguir os passos de Bush. 
Uma das raras excepções verificou-se logo no início do seu primeiro mandato, quando Obama tentou cumprir a promessa eleitoral de fechar Guantánamo. Todavia, os seus esforços esbarraram na intransigência do Congresso e, ainda hoje, a polémica prisão para os suspeitos de terrorismo continua a funcionar. 
Também é verdade que o actual Presidente melhorou um pouco a imagem dos Estados Unidos no mundo e que retirou as tropas do Iraque (ainda que a retirada deste país se tenha iniciado durante o mandato de Bush). Todavia, no restante, Barack Obama tem seguido um guião que podia muito bem ter sido escrito por W. O combate ao terrorismo continua a seguir uma linha dura, como é demonstrado  pela prioridade dada ao cenário de guerra afegão, pela morte de Osama Bin Laden e pela aposta no uso de drones, com estes aparelhos não tripulados a serem mesmo utilizados em países terceiros ou contra cidadãos americanos.
Mais recentemente, a polémica em torno do acesso pelo governo norte-americano a todas as comunicações realizadas no país veio reacender ainda mais o debate sobre os meios utilizados pelo governo dos Estados Unidos para fazer face ao terrorismo. Também aqui, Obama parece seguir a linha de Bush, ao utilizar todas as capacidades ao dispor do governo federal para combater o terror, ainda que tenha de por em causa a privacidade dos cidadãos norte-americanos.
Neste debate, e como seria de esperar, as posições inverteram-se. De um lado, os democratas, anteriormente mais propensos a oporem-se a programas que limitavam a privacidade e os direitos dos cidadãos, como o Patriot Act, são agora acérrimos defensores das medidas adoptadas pelo governo para limitar as actividades terroristas. Do outro lado, os republicanos, que apoiaram todas as políticas anti-terrorismo de Bush, clamam agora por justiça e acusam Barack Obama de extrapolar os seus poderes entrando no domínio privado dos norte-americanos.
No fim de contas, e apesar de todo espectáculo mediático e político à volta desta polémica, verifica-se que George W. Bush em Barack Obama, os dois presidentes dos Estados Unidos na era pós-11 de Setembro, têm seguido a mesma cartilha. Para combater o terrorismo, aumentaram o poder presidencial e não deixaram de utilizar qualquer ferramenta à sua disposição, mesmo que, com isso, tenham levantado questões legais e éticas. Ainda assim, a verdade é que a maioria dos norte-americanos apoia com estas medidas, o que leva a entender que tanto os Presidentes como os cidadãos estão de acordo: neste caso, os fins justificam os meios.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Mulheres ao poder

Anunciam-se mexidas de vulto na equipa de Segurança Nacional do Presidente Barack Obama. Após quatro anos como Conselheiro de Segurança Nacional, Tom Donilon prepara-se para abandonar o cargo e a sua sucessor será nada mais nada menos do que Susan Rice, actual Embaixadora dos Estados Unidos na ONU. 
Como seria de esperar, a escolha de Rice para este importante posto na Administração Obama está a levantar fortes protestos por parte dos republicanos. Contudo, desta vez, e ao contrário do que sucedeu quando Susan Rice foi apontada para Secretária de Estado, o GOP não terá como evitar a sua nomeação, já que o cargo de National Security Adviser não carece de confirmação pelo Senado. 
Por sua vez, o lugar deixado vago por Rice deverá ser preenchido por Samantha Power, conhecida pelo seu empenho no activismo contra o gonocídio. Ao contrário do que acontece com a sua antecessora, Power terá de ser confirmada pelo Senado e, mesmo que a sua nomeação venha a ser aprovada, é de esperar uma forte onda de contestação por parte da bancada republicana, ainda que a ira dos senadores do GOP se centre mais em Susan Rice e Hillary Clinton (Benghazi voltará a estar em destaque) do que propriamente na candidata à nomeação para Embaixadora nas Nações Unidas.
Estas escolhas por parte de Barack Obama permitem retirar algumas ilações. Em primeiro lugar, são uma resposta às críticas que eram feitas relativamente à grande prevalência de homens brancos entre as mais recentes nomeações para altos cargos na administração. Depois, representam uma verdadeiro brinde para os liberais, grandes apreciadores de Susan Rice e, presumivelmente, de Samantha Power. Em sentido contrário, o Partido Republicano verá estas escolhas como uma verdadeira afronta por parte de Obama. A nomeação de Rice, em especial, é uma pequena declaração de guerra ao GOP, que já a havia vetado estrondosamente no processo de substituição de Hillary Clinton.  Contudo, com maior ou menor dificuldade, é praticamente certo que Obama levará a sua avante e colocará estas duas mulheres em lugares de destaque na sua equipa de Segurança Nacional.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Morreu Frank Lautenberg (1924-2013)

Faleceu esta manhã o Senador Frank Lautenberg, o mais velho dos membros do Senado e também o último veterano da II Guerra Mundial a servir na câmara alta Congresso dos Estados Unidos. Senador democrata pelo Estado de New Jersey entre 1982 e 2000 e, novamente, entre 2002 e 2013, Lautenberg não resistiu a uma forte pneumonia a morreu aos 89 anos de idade. Agora, o Governador Chris Christie irá nomear um sucessor temporário até que se realize uma eleição especial para que os eleitores de New Jersey possam escolher o substituto definitivo para Frank Lautenberg.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Fim da linha para Michelle Bachmann

Michelle Bachman, uma das mais conhecidas e polémicas congressistas do Partido Republicano, anunciou esta semana que não se recandidatará a um novo mandato. Alegando que os oito anos que já leva na Câmara dos Representantes são já suficientes para deixar a sua marca, Bachmann abdicou de uma nova luta pela eleição que se avizinhava difícil. 
Se já a sua reeleição em 2012 foi conseguida mesmo à justa, previa-se que em 2014 Michelle Bachmann teria ainda mais dificuldades para bater o candidato democrata, especialmente depois das polémicas relacionadas com o uso indevido de fundos da sua campanha presidencial falhada. 
Por isso, a saída da congressista republicana acaba por ser uma má notícia para o Partido Democrata, que tinha no assento de Bachmann na House uma das melhores possibilidades para "roubar" um lugar na câmara baixa do Congresso ao Partido Republicano. Em sentido contrário, a retirada da representante do Minnesota acaba por ser um alívio para os republicanos, que ficam com uma corrida mais facilitada de forma a manter o distrito congressional de Michelle Bachman na coluna republicana.
Aguarda-se agora com expectativa o desenrolar do futuro de uma das mais mediáticas figuras do GOP e do panorama conservador americano. Actualmente, com uma imagem muito negativa para a maioria dos cidadãos americanos, é pouco provável que Bachmann ainda venha a ter uma carreira política de sucesso no que diz respeito a cargos públicos. Contudo, e à imagem de Sarah Palin, ainda pode ser uma voz muito influente no seio do movimento conservador norte-americano.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A maldição do segundo mandato

É já praticamente uma tradição nos Estados Unidos que os Presidentes sejam assolados, durante o seu segundo mandato, por uma série de escândalos ou problemas que prejudicam a sua imagem e a sua capacidade de governar. Por isso, há quem diga que existe uma maldição que assombra todos os Chefes de Estado norte-americanos que são eleitos para novos quatro anos à frente dos destinos da nação.
E, de facto, os segundos mandatos estão repletos de escândalos presidenciais. Nas últimas décadas assistimos ao Watergate de Nixon, ao Irão-Contra de Reagan, o Monicagate de Clinton ou o Katrina de Bush. Agora, parece que também Barack Obama não escapará a esta maldição e uma série de escândalos para a sua presidência vão surgindo quase que simultaneamente.
Neste momento, o principal problema para Obama prende-se com a revelação que o IRS (Internal Revenue Service), o serviço que gere o pagamento de impostos nos Estados Unidos, atrasou a atribuição de isenção de impostos a grupos conservadores (na sua maioria ligados ao Tea Party). Ora, este comportamento por parte de uma entidade que deve ser neutra e imparcial gerou, justificadamente, muitos protestos por parte da Direita norte-americana. Em resposta ao escândalo, Obama demitiu o responsável do IRS, tentando, dessa forma, acalmar as criticas que eram dirigidas à sua administração.
Contudo, os problemas para a Casa Branca não ficam por aqui. Além do escândalo IRS ainda não estar totalmente sanado e continuar a dominar as atenções mediáticas, outros assuntos vieram prejudicar a imagem do Presidente. Nomeadamente, a descoberta de uma lista de jornalistas da Associated Press cujos telefones terão estado sob escuta do Departamento de Justiça de forma a impedir alegadas fugas de informação sobre temas de segurança nacional levantou, também, críticas à Administração Obama, acusada de contornar a liberdade de impresa. Além disso, a forma como a Casa Branca e o Departamento de Estado lidaram com o ataque à embaixada norte-americana em Benghazi continua a ser alvo de polémica, com os republicanos a insistirem neste tema de forma a tentarem prejudicar politicamente Hillary Clinton, Secretária de Estado aquando do atentado e grande candidata a conquistar a presidência em 2016.
Com todos estes problemas, fica muito complicada a vida de Barack Obama, que tencionava fazer avançar no início deste seu segundo mandato uma imponente agenda legislativa, com destaque para a reforma da imigração. Ciente de que está limitado no tempo e na influência (a parte final de uma presidência é apelidada de lame duck presidency), Obama tem agora de fazer um pressing final para ultrapassar esta fase menos positiva e ser capaz de alcançar metas importantes até 2017. Para isso, também precisa que a maldição do segundo mandato não o volte a assombrar.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Tornado devastador no Oklahoma

Os arredores da cidade de Oklahoma City foram ontem violentamente atingidos por um devastador tornado, cujos ventos ultrapassaram os 300 kms/h. Até ao momento, já foram confirmados 91 mortos e centenas de feridos. Entre as vítimas, encontram-se várias dezenas de crianças, visto que o rasto destruidor do tornado passou por uma escola, reduzindo-a a destroços.
As imagens que chegam dos Estados Unidos são impressionantes e mostram a fúria do fenómeno natural que passou ontem pelo Estado de Oklahoma, uma região habitualmente assolada por tornados. Em resposta aos apelos estaduais e locais, o Presidente Barack Obama já declarou o estado de catástrofe, proporcionando o poder do governo federal no apoio às vítimas desta tragédia.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Nas mãos de Rubio

Ainda que muito lentamente, continuam as negociações entre democratas e republicanos com vista à reforma da imigração no país. Com o apoio da Casa Branca de Barack Obama, é o o chamado Gang of Eight, constituido por oito senadores dos dois partidos, que lidera o processo que deverá levar à apresentação de uma proposta que possa ser aprovada pelo Congresso norte-americano.
Aparentemente, tudo aponta para que a reforma da imigração tenha já os votos suficientes para passar no Senado, mesmo tendo em conta que necessitaria de uma maioria de pelo menos 60 senadores para ultrapassar um eventual bloqueio através de filibuster. Contudo, o Gang of Eight pretende alcançar uma super-maioria, conseguindo o apoio de 70 ou mais dos 100 senadores e uma maioria entre os representantes dos dois partidos. Dessa forma, demonstrando força e consenso, seria bem mais provável que a Câmara dos Representantes, controlada pelos republicanos e cujos membros são bem mais voláteis e polarizados politicamente, aprovasse também esta reforma.
Com os votos democratas garantidos, assim como os de pelo menos quase uma dezena de senadores republicanos mais moderados, falta agora atrair os votos de republicanos relativamente conservadores. Para isso, a chave parece ser Marco Rubio, o senador da Florida e porventura a maior figura do Partido Republicano na actualidade. Filho de pais cubanos que imigraram para os Estados Unidos, Rubio foi um dos proponentes desta reforma que permitirá legalizar milhões de cidadãos ilegais no país e tornou-se o líder do GOP nesta questão. Com o seu apoio inequívoco, muitos dos congressistas republicanos terão maior propensão em aprovar a reforma da imigração. Caso contrário, terão na "desistência" de Rubio um excelente motivo para votarem contra.
Nos últimos tempos, Marco Rubio tem preferido manter um low profile, deixando o destaque para o Gang of Eight que integra. Todavia, é certo que terá sempre um papel determimante para o futuro da reforma da imigração. Ao apostar muito do seu capital político neste tema, Rubio tem também muito a ganhar e a perder. Se a reforma passar tranquilamente e de forma consensual no Congresso, então Rubio terá afirmado a sua liderança e será um concorrente de peso para as eleições presidenciais de 2016. Se, pelo contrário, a reforma falhar, então Rubio terá perdido a batalha que travou o seio do seu próprio partido, ao mesmo tempo que verá o voto hispânico fugir ainda mais dos republicanos, com todas as consequências eleitorais que daí advêm, como tão bem se tem visto nas últimas eleições.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Desemprego em queda

Foram anunciadas hoje boas notícias para os norte-americanos e para a Administração Obama. Segundo o Wall Street Journal, a economia dos Estados Unidos superou as expectativas e criou, em Abril, 165 mil novos empregos, com a taxa de desemprego a baixar para 7,5%, o valor mais baixo desde Dezembro de 2008. Continua, assim, a tendência de recuperação económica dos EUA (em contraponto com a Europa) e que, a manter-se, pode ser uma importante arma para os democratas na campanha eleitoral que se aproxima.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A luta pelas armas

Apesar de a mais recente legislação que restringiria (muito pouco) a compra de armas de fogo nos Estados Unidos não ter passado no Senado, parece que este tema controverso não despareceu da agenda política norte-americana. Aliás, é bem provável que a proposta de lei ou outra muito semelhante volte a ser votada no Congresso, já que o chumbo anterior caiu que nem uma bomba entre os proponentes dessa medida.
Após o falhanço no Senado, os defensores do gun control têm realizado um autêntico blitz mediático, aproveitando-se da popularidade da proposta de lei chumbada entre a maioria dos eleitores norte-americanos. Assim, personalidades como Gabby Giffords (a congressista democrata baleada em Tucson) ou o Mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg têm feito uma intensiva campanha de lobbying de forma a garantir que a mais ambiciosa legislação para o controlo da compra de armas das últimas décadas se torne realidade. 
Parte da estratégia deste lobby anti-armas de fogo é a crítica aos republicanos que votaram contra e que representam Estados moderados. Por exemplo, a senadora Kelly Ayotte, do New Hampshire, está a ser alvo de duras críticas, ao mesmo tempo que é pressionada para modar o seu sentido de voto numa eventual nova votação. Em sentido contrário, um dos proponentes da legislação, o senador republicano Pat Toomey tem visto os seus índices de popularidade subirem na Pennsvylvania, o Estado que representa e que, em 2012, foi ganho por Obama com 52% dos votos.
Para compensar o esforço dos partidários do controlo de armas, o poderosíssimo lobby das armas, em especial a National Rifle Association, está também a colocar a sua própria campanha no terreno. Contudo, a estratégia da NRA passa mais por pressionar os senadores conservadores ao ameaçar descer o seu rating (a NRA possui um ranking onde classifica todos os congressistas de acordo com o seu historial de voto mais ou menos favorável à livre posse de armas de fogo) e a caracterizá-los como anti-armas do que a alterar a opinião da maioria dos cidadãos americanos que apoiam a proposta de lei. Por isso, há até quem fale de um atentado à democracia, quando se percebe que um poderoso lobby tem mais influência do que a opinião pública.



domingo, 28 de abril de 2013

Jantar dos correspondentes da Casa Branca 2013


Realizou-se, ontem, o sempre muito aguardado Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, um dos mais badalados eventos sociais de Washington D.C. e que reúne a fina flor dos meios políticos e dos media norte-americanos. Como sempre, o discurso principal foi reservado para o Presidente dos Estados Unidos que, cumprindo a tradição, usou e abusou do humor para entreter a sua plateia. 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Lei de controlo de armas chumba no Senado

Decorreu ontem, na câmara alta do Congresso dos Estados Unidos, a tão esperada votação de uma nova emenda à lei do controlo de armas no país que visava alargar e reforçar o background check dos compradores de armas e fechar uma falha na legislação que permitia a venda livre de armas em feiras especializadas (os chamados gun shows). Contudo, a proposta de lei obteve apenas 54 votos favoráveis, ficando, por isso, aquém dos 60 necessários para ultrapassar o previsível filibuster de bloqueio.
Apesar de ter cariz bipartidário - a proposta de lei foi patrocinada por dois senadores, o democrata Joe Manchin e o republicano Pat Toomey - a gun controll bill nem sequer conseguiu receber o apoio de todos os senadores democratas, já que foram cinco os membros do Partido Democrata que votaram contra a proposta (entre eles, Harry Reid, o líder democrata, que apenas o fez por razões procedimentais, podendo, assim, voltar a submeter a proposta a votação). Por outro lado, apenas quatro senadores republicanos votaram favoravelmente, o que foi insuficiente para que a proposta passasse no Senado.
Cumpriu-se, assim, o desfecho esperado, já que não era crível que o Senado votasse a favor desta medida. Dado que mesmo que a proposta passasse na Câmara Alta, era já um dado praticamente adquirido que a mesma iria chumbar na Câmara dos Representantes controlada pelo GOP. Ora, esse facto desmotivava qualquer senador que pudesse estar disposto a mudar de posição de forma a permitir a passagem da proposta. Sendo certa a derrota da medida, ninguém quereria prejudicar a sua posição política, fosse por ir contra os seus eleitores, fosse por ir contra a poderosa National Rifle Association.
E foi assim que morreu, pelo menos para já, mais uma proposta que pretendia controlar, ainda que muito timidamente, a compra e a posse de armas nos Estados Unidos. Mais uma vez, fica comprovado o poderio do lobby das armas que foi capaz de impedir uma medida apoiada pela esmagadora maioria dos norte-americanos e que contava com o alto patrocínio da Casa Branca e de nomes dos dois partidos.